Teatro proibido e censurado em Portugal no século XIX

O pacto infernal
José Maria Brás Martins
Comédia
Teatro do Ginásio
As peças do género desta que tenho presente, O pacto infernal, escapam às regras ordinárias da crítica e esquivam-se ás minúcias da análise. Se o que nelas há de fantasioso acompanha com plausibilidade o andamento da acção a peça pode agradar e nnguém tem que pedir contas ao autordos meios sobrenaturais de que usou para conseguir este fim. O maravilhoso desta comédia baseia-se na crença popular de que o diabo anda solto no dia de S. Bartolomeu e todos os malefícios que ele pratica vão engenhosamente de acordo com [o] enredo da peça. Por este lado não temos senão que louvar o autor pela sua, aliás já provada, tendência para enredar com tacto e desenlaçar com lógica uma obra teatral. Não sei se iria mais em harmonia com a índole legendária desta comédia a graciosidade permanente da acção e do estilo, mas creio que não será do desagrado público a cómica figura do inglês William Smith e as facécias dos dois criados Bento e Tomé. Enquanto à parte puramente dramática, repito que não tenho senão a louvar o autor, sendo na parte literária para desejar que o estilo se conservasse sempre à altura de algumas das melhores situações da comédia. O autor usa por duas vezes do adjectivo «querida» com sinonímia de noiva ou de requestada, o que é inadmissível em português. A páginas 9 e a páginas 20 emprega o autor impropriamente e numa falsa acepção o adjectivo «guidado», dizendo uma vez «caiu» e outra «desceu guidado». Ora guindar significa «alçar», «içar», a acção exactamente contrária a «cair» e a «descer».
A páginas 11 diz um dos personagens desta peça «que jogo quatro libras sobre o ás de copas», naturalmente para dar lugar ao trocadilho pouco decente do inglês Smith que responde «Mim vai também ao ás de copas». Uma peça de merecimento dramático como esta não carece desta obscinidade para se fazer valer. nas diversas coplas há versos pouco bem acentuados e entre algum a que faltava sílabas, entre estes últimos estarão os seguintes (a pág. 20): «Que não dá um ceitil»; A pág. 38 este: « Livre hás de ficar pela virtude» e este outro: «Não pode contra ela o vício rude».
Finalmente, entre pequenas emendas ou omissões de palavras que fiz no texto desta comédia vai substituída esta pouco exacta expressão «anhelando pela face do Criador» e ainda esta: «o Supremo», adjectivo que o autor refere a Deus, mas que pede um substantivo com que concorde, por exemplo «Árbitro».
Assentas estas emendas, remato o meu parecer louvando o merecimento dramático da comédia que se intitula O pacto infernal. Lisboa, 17 de Março de 1862. L. A. Palmeirim
22-03-1862
Luís Augusto Palmeirim
Direcção do Teatro do Ginásio
Comissão de Censura Dramática
Arquivo da Secretaria Geral do Ministério da Educação e Ciência – Conservatório Nacional, cx. 773, mç. 2900