Teatro proibido e censurado em Portugal no século XIX

O retrato de Miguel de Cervantes
José Maria Brás Martins
Drama
Teatro do Ginásio
Este drama O retrato de Miguel de Cervantes denuncia desde logo aos versados em assuntos teatrais a sua procedência, quer pela anunciação dos diálogos quer pela excentricidade de alguns caracteres e quer, enfim, pela parte activa que os criados tomam nas acções de seus amos e por um certo sobrenatural que a escola dramática espanhola nunca se esquece de aproveitar, a troco, mesmo, às vezes, do bom gosto e da verdade histórica, mas em proveito do vulgo a quem sempre agradam as fantasmagorias. Fiel à sua origem, tem este drama todas as qualidades e todos os defeitos que acima deixo apontados. O enredo desta peça é chistoso, vivos os diálogos, abundantes as situações cómicas, especialmente do meio do segundo acto por diante. Pena é que a austera figura de Murillo vá neste drama desenhada em traços tão alheos à tradição histórica e que o vulto ainda mais austerode Miguel de Cervantes sirva de joguete cómico ás jogralidades de Frasante e de Pedrilho. Estas aberrações, porém, não impedem a constante alegria que reina nesta peça. Fora, contudo, acertado que o ressuscitador deste drama o o desbatesse de plebeismos próprios na boca dos dois criados, mas mal soantes nas do pintor Murillo.
Uma certa obscenidade que por vezes encontro nesta peça nasce dos cortes e aditamentos feitos ao original, mas à falta deste foi-me impossível indicá-los com precisão. Entre alguns erros de menor monta vão assim todos os seguintes: «correspondência civil», «vizinhagem», «paradoiro», «escondrê-los», «ministério», «a asanha do» e «frescura» que o autor substituirá por «acto de civilidade», «vizinhança», «paradeiro», «mistério», «ofício», «grageado» e «sangue-frio».
A páginas 34 lê-se «Foi ela que alentou o meu amor no coração de sua filha». Esta frase é impossível. Uma pessoa confiar a outra o seu amor e essa pessoa «alentar-lho» é natural, mas essa mesma pessoa alentar num coração alheio um amor de que a fizeram confidente é, como autor vê, um contrasenso moral.
Recomendo por último ao autor que confie de mais seguro espírito as suas produções, para que os erros ortográficos da peça não passem para os actores transformados em vícios incuráveis de pronúncia.
Feitas estas emendas, e algumas outras que no texto vão apontadas, aprovo para se representar no Teatro do Ginásio o drama em 3 actos O retrato de Miguel de Cervantes , crente no seu bom resultado cénico e nos aplausos públicos. Lisboa, 19 de Março de 1862. L. A. Palmeirim
24-03-1862
Luís Augusto Palmeirim
Direcção do Teatro do Ginásio
Comissão de Censura Dramática
Arquivo da Secretaria Geral do Ministério da Educação e Ciência – Conservatório Nacional, cx. 773, mç. 2900