Teatro proibido e censurado em Portugal no século XIX

Fiel na infidelidade
J. da Silva Matos (trad)
Comédia
Teatro do Ginásio
Aprovo para se representar no Teatro do Ginásio a comédia em 1 acto intitulada Fiel na infidelidade, feitas as emendas e substituições que vão indicadas. O nome francês Georgete não pode ser traduzido como está na peça por «Jorgete», mas sim pelo substantito feminino Georgina. A palavra «libré» envolve a ideia de fato, e é inútil dizer «fato de libré». As palavras «baldrofaste», «gringolineiro» e «xispeleo» não me consta que existam em português e aconselho o tradutor a substituí-las por outras, embora rasteiras, mas que tenham curso na linguagem familiar. Ninguém ameça uma pessoa de lhe «arrancar a cara», mas sim «os olhos», o que já não é pouco. Substitutí a palavra francesa «rendez vous» por «entrevista», «alusão» por «remeniscência», finalmente «decoração» por «vesturário». Quem troca um fato quer outro fato «veste-se», não se «decora»; vestir libré é como vestir casaca, a palavra que exprime um ou outro acto é a mesma.
Feitas estas alterações capitais e outras mais miúdas que também vão indicadas aprovo a comédia Fiel na infidelidade, aconselhando ao tradutor mais zelo nas futuras traduções que fizer. Lisboa, 12 de Março de 1862. L. A. Palmeirim
31-03-1862
Luís Augusto Palmeirim
Direcção do Teatro do Ginásio
Comissão de Censura Dramática
Arquivo da Secretaria Geral do Ministério da Educação e Ciência – Conservatório Nacional, cx. 773, mç. 2900