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A missão do trabalho
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Comédia
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Teatro da Rua dos Condes
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Em mais limitado quadro do que o desta peça A missão do trabalho é impossível encontrar maior número de incoerências morais nos sentimentos dos personagens e de flagrantes contradições no andamento geral do enredo, apesar da sua quase nulidade. O estilo ora rasteiro em demasia ora guindado sem necessidade falseia as ideias do autor e tira a esta comédia a nobreza que o assunto requeria. Finalmente, pouco conhecedor da nossa língua, o autor inventa adjectivos que não existem em português, tornando, por vezes, os diálogos obscuros ou piegas. Passo a dar amostras de todas estas verdades para que não seja imputado de pouco benévolo o meu voto ou de exagerada esta minha apreciação.
Ângelo, o pintor protagonista desta peça, é, à força de lastimar-se, um carácter sem nobreza nem dignidade artística; Raquel, filha de Ângelo, é uma figura sem alcance poético; Estêvão, um sedutor vulgar; finalmente, Abel, discípulo do pintor, um personagem vasado nos mesmos moldes acanhados do mestre. Ângelo morre de fome e relucta em vender um quadro: contradição; Abel vive na intimidade do mestre e desconhece-lhe as necessidades: inverosímil; Raquel não diz ao pai o nome de quem pretendeu seduzi-la e o pai adivinha-o! Por este lado, basta. Qualquer pessoa pergunta singelamente pela saúde de quem o ineressa, mas Estêvão deseja saber se a «alteração operada na saúde de Ângelo se aplicou»»! Deste estilo há muitos mais exemplos na comédia. Os adjectivos «meritoso» e «justiçoso» não existem em português, tendo o autor, naturalmente, querido dizer «meritório» e «justiceiro». «Despojar-se de um companheiro de desgraça» é uma rase falsíssima, bem como o não é menos dizer um pai a um filho «que lhe nega a paterindade», acto material doudo que ninguém pode negar, se existe. À vista destas razões e de muitíssimas outras que omito por me parecer já bastante fundamentado o meu voto nego a aprovação da comédia que se intitula A missão do trabalho, oferecendo-me para desenvolver mais especificamente a minha opinião se porventura for contrariada. Lisboa, 13 de Março de 1862. L. A. Palmeirim. |
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13-03-1862
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Luís Augusto Palmeirim
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Direcção do Teatro da Rua dos Condes
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Comissão de Censura Dramática
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Arquivo da Secretaria Geral do Ministério da Educação e Ciência – Conservatório Nacional, cx. 773, mç. 2900
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