|
O milagre de Nossa Senhora da Nazaré
|
|
|
P. L. Almeida Chaves
|
|
|
Lenda dramática
|
|
|
Teatro da Rua dos Condes
|
|
|
Li a lenda dramática em 2 actos e 10 quadros intitulada O milagre de Nossa Senhora da Nazaré e darei acerca dela o meu rápido e imparcial julgamento. Poético como é o milagroso salvamento do alcaide D. Fuas Roupinho, tão despido de incidentes drama´ticos no-lo transmite a tradição que decerto merece elogio o autor desta peça por ter com elementos extra-históricos uma ligação constante à austera nudez e primitiva simplicidade do assunto, tornando-o, assim, mais grato ao paladar das plateias. É pena, porém, que o viver e crer de uma época remota seja seja modernizado d emodo na boca de algumas figuras desta peça que o espectador, ouvindo-as, ccuide ver em D. Branca uma ingénua vulgar, no velho Mendo Pais um poltrão caduco da actualidade, e na própria veneranda figura do alcaide um tal amaneirado de farsa que indiscretamente se aproxima dos nossos dias, tirando-lhe um pouco a poesia legendária em que devera constantemente envolver-se. Estas considerações, puramente literárias, não alteram o merecimento dramático da peça mas empalidam-no aos olhos dos amadores conscenciosos da cena portuguesa. As frases «dizer com os seus botões», «rir às bandeiras despregadas», «subir ao poleiro» e muitas outras t~em um tal cunho de modernismo que destoam da época das figuras e do assunto desta peça, e é do meu dever citá-las ao autor, embora o público lhe nãoexija contas destas, que ele supõe miudezas. A páginas 3 do 1.º acto diz o autor «a campanha deste dia», para haver campanha é necessário uma série de actos militares encadeados de uma certa e determinada maneira. A palavra «campanha» não pode significar, portanto, o recontro hostil de um só «dia». na cena 9.ª diz o autor, referindo-se aos mortos na batalha «que estão debaixo da terra, comendo-a pelas raízes»! Comer a terra pelas «raízes» é o que vulgarmente se chama uma espanholada, além de ser uma expressão cientificamente inadmissível. apesar destes reparos de fácil emenda, aprovo para se representar no Teatro da Rua dos Condes a lenda dramática intitulada O milagre de Nossa Senhora da Nazaré, elogiando-a na parte puramente dramática. Lisboa, 12 de Março de 1862. L. A. Palmeirim.
|
|
|
12-03-1862
|
|
|
Luís Augusto Palmeirim
|
|
|
Direcção do Teatro da Rua dos Condes
|
|
|
Comissão de Censura Dramática
|
|
|
Arquivo da Secretaria Geral do Ministério da Educação e Ciência – Conservatório Nacional, cx. 773, mç. 2900
|