Teatro proibido e censurado em Portugal no século XIX

A família do tio Brás
A. César de Vasconcelos
Comédia
Teatro do Ginásio
Revi a comédia em três actos intitulada A família do tio Brás. Apesar da singeleza e talvez pouca novidade do enredo, apresenta algumas situações que devem produzir bom efeito, e que estão naturalmente combinadas e logicamente desenvolvidas. Há, todavia, nesta peça uma cena que, embora seja verdadeira, é convenientemente tratada no diálogo, não me parece dever causar uma boa impressão na plateia. O tipo da alcoviteira repugna sempre ao espectador, e a prova é que todas as vezes (ao menos que eu saiba) que tem aparecido no palco, promove-lhe sinais de reprovação. Ainda há pouco tempo, numa comédia de Pausard, intitulada Ce qui plait aux fammes, que foi à cena no Teatro Normal, se deu esse exemplo. O público reprovou o tipo, e reprovou-o sendo desempenhado por uma das nossas melhores e mais simpáticas actrizes, a ilustríssima D. Delfina.
Faço esta observação, em consequência do interesse que sinto pelo autor, em quem reconheço uma feliz vocação, a quem não desejo um dissabor. É o único motivo que me leva a indicar uma coisa de que não tenho responsabilidade. Quanto à parte literária, dou-lhe o meu voto de aprovação para ser representada no teatro a que se destina. Lisboa, 18 de Julho de 1862. Ernesto Biester.
19-07-1862
Ernesto Biester
Direcção do Teatro do Ginásio
Comissão de Censura Dramática
Arquivo da Secretaria Geral do Ministério da Educação e Ciência – Conservatório Nacional, cx. 773, mç. 2904