Teatro proibido e censurado em Portugal no século XIX

O califa
P. V. Martins da Silva
Comédia
Teatro da Rua dos Condes
1.º -Revi a comédia em 1 acto intitulada O califa e que foi apresentada à censura como imitação, o que basta para a condenar, pois ficou ainda mais absurda e inverosímil do que já o era no original. Baseia-se o enredo nisto: há um português que vai a Constantinopla e que lá compra uma escrava que traz para Portugal e que encerra num quarto andar da Rua das Canastras, fazendo-a persuadir que está em Tunes! Esta escrava era uma costureira espanhola (que falava português) e que tinha namorado um moço de café, que também se acha em Lisboa nesta ocasião! A mulher legítima do protagonista tinha sido educada em Madrid, em um colégio de que era costureira a suposta escrava, que vem encontrar na Rua das Canastras, numa casa que comprara na ausência do infiel esposo. Para se ajuizar da verdade e da lógica de semelhante imitação, parece-me suficiente este rápido esboço do enredo. Resta-me, porém, acrescentar que a koral é por vezes ofendida , tanto em ditos, alguns dos quais vão indicados a lápis, como também nos amores de um certo primo pela esposa do califa português. Terminarei, pois, negando-lhe o meu voto de aprovação para ser representada no teatro a que se destina. Lisboa, 10 de Dezembro 1863. Ernesto Biester.

2.º O califa acompanhado deste parecer que lhe lavrei voltou à censura com leves e insignificantes alterações, que apenas confirmam o pouco valor que tinha a imitação, pois bastou trocar-lhe os nomes e as terras para, na opinião do imitador, ficar nacional ou estrangeira. Mantenho, portanto, o meu primeiro voto. Lisboa, 22 de Dezembro 1863. Ernesto Biester.
Denegada a licença
20-04-1865
Ernesto Biester
Direcção do Teatro da Rua dos Condes
Comissão de Censura Dramática
Arquivo da Secretaria Geral do Ministério da Educação e Ciência – Conservatório Nacional, cx. 773, mç. 2902