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Torcato, o santo
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António Mendes Leal
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Drama
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Teatro da Rua dos Condes
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Li o drama Torcato, o santo, amálgama pouco judiciosa de amores profanos e aspirações divinas e coroado pela morte do protagonista, mártir duas vezes, uma às mãos do emir Muça, e outra na prosa incorrecta do autor desta peça, como passarei a demonstrar.A análise seguida deste drama é quase impossível num rápido julgamento, tantos são os erros de gramática e de ortografia, as falsidades de estilo e os barrancos de lógica que nele avultam.
Logo a páginas 2 diz o autor: «fonte eterna de adorações contínuas». A ideia de «eternidade» envolve e pressupões a de «continuidade» e é, portanto, demais um dos epítetos dado à «fonte de adorações». Na mesma página lê-se: «pois há de servir de peia às almas afectuosas apostas crenças? A lei do crucificado poderá mais que os ímpetos da lama? Não pode». Aqui temos em três linhas duas vezes repetido o substantivo «alma» e outras duas o verbo «poder», o que, desde logo, denota no autor pouca perícia no escrever. Na mesma página (ainda!), forçado pela rima, diz o trovador, um dos personagens da peça, que um sorriso de Edul é para «a saudade de um sol»! A este contrasenso é levado o autor pela consoante anterior que é «arrebol». A páginas 3 encontra-se por duas vezes repetido os adjectivos «puro» e «casto» e o substantivo «hora», erro a que se aplica as considerações já feitas acima. Notarei aqui de passagem que o verbo «esmaltar» caiu em graça ao autor que usa amiudadas vezes dele com impropriedade, bem como do substantivo «origem» na acepção de «nascimento». Waldemar, o trovador das montanhas, diz a Edul, sua requestada: «És um anjo, se não te amasse já tanto tornava-me teu idólatra»! Ora idólatra significa adorador dos ídolos e a não ser o autor meta nesta conta os anjos, o trovador não é, nem pode ser, «idólatra». Passarei por alto algumas expressões que apenas denotam mau gosto e vão sublinhadas no texto para dar aqui um exemplo de gramática do autor: «Sossegai que me pedireis vós que vos não faça». Os dois verbos «pedir» e «fazer» brigam um com outro neste período. Na página seguinte, Torcato, a quem estou tentado a negar a santidade, diz: «O ministro de Deus só aspira à bem-aventurança do céu (pois a que outra bem-aventurança há de ele aspirar senão á do céu?) e não de fassina (o autor queria dizer fascina) nem mesmo com espontâneos júbilos do rebanho que pastoreia»! Que o santo se fascine não o desejo eu, mas que se alegre com as alegrias do seu rebanho é naturalíssimo, a não lhe acusarmos gratuitamente o grande pecado do orgulho que, como o autor sabe, é mortal. A razão que o santo dá para esta sua pouca evangélica evolução é «cumprir com o seu dever»! Este lá se entende. Leio mais até páginas 8 as seguintes impropriedades de frase: «confiar a vida» por «confiar o segredo da vida» e «profundar um castigo», «do vosso cólera» e outras. Um pouco mais abaixo lê-se: «Deus conta por séculos de bem-aventurança cada dia de angústia». Ora o que faz um verbo mal empregado! «Deus dá séculos de bem-aventurança por dia de angústia», mas não os conta como o autor afiança. A narração da ida de S. Torcato a Toledo convocado por «alta mercê» é fastidiosíssima e encontram-se nela expressões que provocam o riso pela ingenuidade com que são ditas. Por exemplo, estas duas postas na boca de um homem que está para morrer: «estou por momentos a dizer adeus ao mundo», e, referindo-se aos dois filhos que teve, diz: «foram preciosos frutos de tal união um menino, e uma menina»! A falta da necessária virgulação faz com que a páginas 11 o leitor possa entender que um «pergaminho» é metade de uma medalha de «cobre»! «Tempestade afectuosa» é também uma frase completamente inadmissível. na cena 9.ª aparece pela primeira vez a africana Zhara, que se declara «leoa» a páginas 14, «pantera» a páginas 15, «hiena» a páginas 16! Já é vontade ser bicho! Zhara, na sua linguagem oriental a que ela modestamente chama «satânica eloquência» oferece a Ismael «uma existência esmaltada de ternura», chamando-lhe, pouco depois, «homicida dos corações»! Na cena 2.ª do segundo acto Edul diz «trazer o espírito atribulado sem encontrar uma ideia amena onde consiga pousar»! A Fénix renascida não dá exemplo de igual ousadia poética – «o epsírito a pousar numa ideia»! A descrição do paraíso de Mafoma feita por Ismael e a do céu dos cristãos por Edul são cheias de banalidades e terminam por esta impossível oferta do adorador do crescente: «disponde de minha morte»! Há muito quem disponha da vida humana, desde Deus até ao senhor de roça, mas quem disponha da morte não me consta que haja. «Subtrais alguém nos afectos que lhe povoam o coração» é também uma frase tão amaneirada que se torna ridícula e inadmissível. A páginas 27 do segundo acto Muça pergunta a Zhara se Edul é «preciosa». O utor queria decerto dizer «formosa», como se infere desta resposta de Zhara: «como nenhuma escrava do vosso harém». No começo do 3.º acto, os árabes das hostes do emir falam como se fosse uma coisa naturalíssima nos «coiros de Marte»! Chama-se a iso confundir babilónia com Sião. A páginas 35 lê-se: «Tudo que ela me ordenar cumprirei, virtude ou crime, infâmia ou desonra». Entre virtude e crime há, com efeito, antítese, mas entre infâmia e desonra não sei aonde o autor a encontra. A páginas 37 diz o emir Muça que «nunca teve compaixão com prisioneiros e mitp menos com inimigos», daqui connclui-se o que o autor decerto não quer concluir ou que os prisioneiros são amigos ou que os inimigos não estão prisioneiros. A páginas 39 lê-se: «Muça – Respondes-me por eles? (os prisioneiros) Zhara – Duvidas? Muça – Pergunto. Zhara – Respondo.» Neste incisivo diálogo fica o leitor sem saber se Zhara responde pelos prisioneiros se responde somente à pergunta do emir Muça. A páginas 45, S. Torcato , ameaçado de morte pelo emir Muça (a acção deste drama passa-se em Braga e perto de Guimarães) diz que «vai apelar de tantas crueldades para o califa de Damasco»! Há dois absurdos na apelação do santo, um jurídico e outro geográfico. Um em apelar (à parte o modernismo deste verbo) do emir para o califa, o outro em imaginar que na remotíssima época em que se passa a acção deste drama se podia se podia apelar de Guimarães para Damasco com a facilidade com que um réu da mesma localidade pode apelar hoje para a Relação do Porto! Não quero terminar este parecer sem dar também aqui uma amostra da ortografia do autor. Erros – Emendas permitivo – primitivo fassina – fascina despeite- despeito imposives – impossíveis consiliar - conciliar synistro – sinistro Por uma progalidade sem conta o autor cedilha constantemente o «çe» e o «çi» e comete um sem-número de outros pequenos erros de virgulação que tornam difícil a leitura deste drama. À vista destas sólidas razões e de outras que omito por brevidade, nego o meu voto de aprovação ao drama que se intitula Torcato, o santo. Lisboa, 19 de Março de 2862. L. A. Palmeirim |
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Denegada a licença
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31-03-1862
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Luís Augusto Palmeirim
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Direcção do Teatro da Rua dos Condes
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Comissão de Censura Dramática
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Arquivo da Secretaria Geral do Ministério da Educação e Ciência – Conservatório Nacional, cx. 773, mç. 2902
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