Teatro proibido e censurado em Portugal no século XIX

A
Sentinela de mulheres
Félix Dutertre de Veteuil; Charles Collinet Deslys; Augusto Soares Franco (trad)
Comédia
Teatro do Ginásio
Li a comédia em 2 actos intitulada , que é delicada e engenhosa na urdidura, interessante nas situações e de bom efeito no desenlace. Entendo, porém, que lucrara, e muito, em não haver sido imitada, ou para melhor dizer, em não pretender-se imitá-la. Nem os tipos nem a linguagem apresentam feição nacional. O título também o não julgo acertado. Sentinela de mulheres ainda tinha um passe, porque o tal Inácio é sentinela da sua e da alheia (mulheres, entenda-se). Vão indicadas várias emendas e precisa ainda de muitas outras, sem exceptuar erros de ortografia. Feitas essas emendas, dou-lhe o meu voto de aprovação, atendendo ao mérito original da comédia, para ser representada no teatro a que se destina. Lembro igualmente ao imitador que não existem burros vermelhos, nem é vulgar que se baptizem entre nós com o nome de «Martinho». Lisboa, 22 de Dezembro de 1862. Ernesto Biester (SGMEC)
Pode representar-se. Inspecção Geral dos Teatros em 14 de Agosto de 1863. Carlos da Cunha e Meneses (ESTC)
14-08-1863
Ernesto Biester
Romão António Martins
Comissão de Censura Dramática
Arquivo da Secretaria Geral do Ministério da Educação e Ciência – Conservatório Nacional, cx. 774, mç. 2913; Biblioteca da Escola Superior de Teatro e Cinema – MAN-A1-P5-0610
Trata-se de imitação do vaudeville La jarretière rose de , Félix Dutertre de Veteuil e Charles Collinet Deslys.
O título original da tradução era A sentinela de minha mulher, que se encontra alterado no manuscrito, que apresenta as seguintes observações ao pareceer do censor:

Nota 1 do traduor - Fiz as emendas, não por conhecer que todas são boas, e algumas nem merecem tal nome mas sim de lembranças, lembrou um ou outro artigo que tinha esquecido. Não se admire Sua Exª de em uma cópia, encontrar erros de ortografia, nem me consta que seja das atribuições do censor anotá-los; estou certo que se o censor lesse o original não faria o parecer que fez. A linguagem e os tipos apresentam feição nacional, tenho pena que não possamos questionar sobre isso. A. Soares Franco.

Nota 2 do tradutor - Sobre o título não faço questão, não a merece, digo só que não acho razão alguma ao censor; mudar-se-á o titulo porque o meu fim é que a comédia se represente (que não é muito arriscado [?]) se o fosse não escrevia esta meia dúzia de linhas, que podem contraiar o fim, apesar de estar já aprovada a comédia, visto que as emendas foram feitas, (satisfez-se a condicional). Em quanto aos erros de ortografia, já que o censor queria entrar nessa especialidade (que não devia) digo que ninguém se livra d'eles, e os erros não são muitos. Se a comédia for à scena, o público fará justiça. Lisboa 5 de Março de 1863 - Martinho e burro vermelho é do original. A. Soares Franco.